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| Foi num dia de chuva, nublado, que Arabella acordou para o mundo.
Viu que não dava mais para continuar vivendo de passado.
O presente é o que importa. Agora, tomada a decisão é preparar a mente,
o espírito, o corpo, para essa nova fase.
Afinal, trinta anos são trinta anos. Ela mesma já havia escrito:
Um ano é toda a nossa vida. |  |
Quarta-feira, Julho 07, 2004
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Arabella sem Arabella
Acordou no meio da noite. Perdera o sono. Arabella foi até o quarto dos seus dois filhos e passou bons longos momentos ali, de pé, parada, observando e velando o sono dos dois filhotes. Fazia isso de vez em quando. Tinha um pouco a ver ¿com a vida dela sem ela¿. Ficava imaginando que um dia, se acontecesse da vida dela acontecer sem ela, seria exatamente assim que viria para acompanhar os dias de suas crias. Ali: de pé.
Sentia-se como se estivesse assistindo a um filme. Não lamentava muitas coisas em sua vida, lamentaria, apenas, se um dia perdesse essa oportunidade de estar ao lado de seus filhos. O coração ficava apertado só de pensar. Sentiu uma dor no peito e uma vontade de chorar. Não chorou. Não cabia naquele momento. Seus filhos estavam ali e ela também. Todo mundo bem e com energia para enfrentar dias e mais dias, anos e mais anos de vida. Afastou os pensamentos tristes e agradeceu por tudo o que tinha.
Pensou... Refletiu.
Sou feliz com o que sou hoje... Sou exatamente o que queria ser. O que sonhava ser? Não, claro que não. Claro que se me dessem a opção, eu teria escrito na minha requisição que queria estar hoje, aos 36 anos, muito mais rica - financeiramente falando, porque de saúde, família, amigos, amores (embora conturbados) estava absolutamente bem.
Arabella não era religiosa. Não tinha essa de sair agradecendo e louvando por aí. Acreditava em Deus, Jesus, forças maiores e pessoas iluminadas e rezava para todos os eles. Uma reza tranqüila. Mais um bate-papo do que uma reza, para falar a verdade.
Tenho esse sentimento de intimidade com o pessoal lá de cima, dizia.
Tinha mesmo. Quando ia a uma igreja, escolhia os momentos em que o local estivesse vazio, propício para a reflexão. Ali ficava por horas... Pensando, refletindo. Era uma espécie de terapia que se proporcionava em alguns momentos.
Era ali que refletia e imaginava sua vida ¿com ela¿ e ¿sem ela¿ e os passos nas duas situações. Quase sempre concluía que era possível sim sua vida sem ela, mas, com certeza seria bem mais complicado. Doía pensar em seus filhos substituindo a sua presença, ou comentando um com o outro se um se lembrava de alguma passagem com a mãe, ou quais as passagens e as qualidades que eles mais gostavam na mãe. Chorava. Invariavelmente chorava quando se ocupava desses pensamentos.
Por isso, escrevia. Escrevia sempre para seus filhos. Queria deixar para eles uma espécie de dossiê sobre ela e a vida deles com ela. Era uma forma de perpetuar-se na vida dos dois.
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ARABELLA A BELLA 3:29 PM
Segunda-feira, Julho 05, 2004
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Latência amorosa
Não encontrou o antigo amor na rede online de amigos. Talvez, ele não fosse mesmo adepto a esse tipo de serviço.
Era mesmo meio avesso às tecnologias, lembrava-se.
A verdade era que Arabella estava quase que desistindo de um dia olhar de novo para o velho e bom amor de sua adolescência. Já tinha meio que cristalizado a história dos dois e esperava pelo reencontro em outra oportunidade, em outra vida ou em outro planeta quem sabe. Ria-se dessas suas idéias malucas, mas, no fundo acreditava nelas.
Arabella só não se conformava com a tal da paixão mal resolvida e vivia o vazio de não conseguir preencher seu coração plenamente. Sabia que, lá, havia um vácuo, pela ausência do primeiro grande amor. Uma obsessão, mais propriamente dita. Mas, olha, isso num atrapalhava suas tentativas. Arabella sempre se recusara fechar-se para o amor. Embora, novamente, naquele momento, estivesse vivendo uma fase de latência completa.
Decidira ir ao cinema. Queria assistir a um filme que esperara por longa data e quando tivera uma brecha na sua agenda de filhos e trabalho, decidira dar a si mesma esses momentos de encantamento com a sétima arte.
Não era um filme fácil. Estava em casa quando decidira ir ao cinema. Pensara trilhões de vezes se iria ou não. Ás vezes acontecia isso. Adorava sair, adorava ¿errar¿ sozinha, mas, sentia-se algumas vezes um pouco presa numa inércia que a impedia de avançar. Pensou, repensou e pensou novamente se ia... Se não ia... Até que cogitou a possibilidade de ligar para alguém. Lembrou-se das amigas...
Não, elas estão todas já com o dia agendado. Não, não as incomodo. Pensou.
Essa era outra característica de Arabella. ¿Odiava incomodar¿. Quer vê-la contrariada, faça-a sentir que está incomodando, que épersona non grata, ou, que avançou o sinal. Ficava péssima com isso. Punia-se por incorrer nesse erro.
Bem, descartadas as amigas, pensou nos amigos e potenciais amores. Novamente recuou. Não agüentava mais aquele jogo de sedução que envolvia as mãos que se tocam fortuitamente na cadeira da sala de exibição. Aquela obrigação de se tocar, trocarem olhares e beijinhos.
Não. Estava definitivamente virando uma rabugenta, pensou. Uma rabugenta sem espaço para os jogos de sedução.
Mas, não era isso. Não era mesmo. Adorava os jogos de sedução. Adorava seduzir e sentir-se seduzida. Só
estava cansada de amoresinhos. Queria descobrir a pessoa certa. Estava, mesmo cansada de ¿errar¿. Queria, agora, acertar, mais do que nunca.
Decidiu: foi sozinha ao cinema. Foi assistir a um filme Canadense com co-produção espanhola. Falava, o filme, de uma jovem que descobre que tem pouco tempo de vida e que começa a conjecturar como será sua vida sem ela.
O filme prendeu a atenção de Arabella que, pasmem, coincidência ou não, calhou com o momento dela. Ultimamente andava pensando muito na morte. Porque? Não sabe. Não tem vontade nenhuma de morrer. Tampouco teme a tal. Apenas cogitava como seria a vida dela sem ela... Tal qual a atriz do filme.
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ARABELLA A BELLA 5:30 PM
Sexta-feira, Julho 02, 2004
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A Dor e a Delícia dos Tempos Medernos
Arabella sofria da paranóia desses tempos modernos. Vivia a agonia de todo ser paranóico nesse início de milênio. Estava 24 horas online, num desligava nunca. Era o celular ligado, sempre, e quer ver a moça transtornada era quando ligavam para ela e ela ou não podia atender, ou não via quem era, ou ia atender e caía a linha, ou, pior, o telefone que ficava gravado no bina era de um PABX, onde ficava quase impossível localizar a fonte.
Arabella sofria dessa síndrome. Declarava-se uma viciada nessas maquinetas modernas. Desde que comprara o primeiro celular, nunca mais o largara e, mais, nunca mudara de operadora para não ter que mudar o número. Pensava que, se alguém a quem dera o número do celular há muito tempo, a procurasse e o número tivesse sido trocado não se perdoaria por não ter sido encontrada. Embora que, sabia (é certo) que, quando a gente quer encontrar alguém, a gente move montanhas.
Mais, ou menos! Discordava ela da narrativa.
Há anos tento encontrar o Alex e ainda não consegui nem pistas sobre o paradeiro dele, muito menos se ele está ainda vivo. Reclamava...
Mesmo assim, ela seguia há mais de dez anos com o mesmo número de celular.
Separara-se do marido e uma das coisas que fez questão de ficar foi com o número de celular, pode?
Era também, no meio dessas divagações, que ela dava uma de advogada do diabo e dizia para si mesma: que poderia ser localizada por quem quer que a conhecesse nos últimos dez anos. Nunca deixara de dar seu número de telefone (de casa) e celular ¿ o telefone também era o mesmo. Mesmo com a separação, não se desfizera dele.
Mesmo assim, com toda essa preocupação, perdera o contato com muita gente boa que ficou pelo meios de sua estrada da vida. Lamentava profundamente.
A última da bella ¿errante¿ fora entrar numa rede de amizade pela web. Ouvira falar que a tal rede auxiliava as pessoas a encontrar amigos distantes e do passado. Presenciara diálogos no trabalho sobre amigos de infância que tinham sido localizados pelos seus colegas de trabalho.
Será que dessa vez, encontro o Alex para passar a limpo nossa história? Se perguntava incansavelmente.
Na verdade, o que a fazia tão ligada ao moço era a sensação de ¿paixão mal resolvida¿... Cantava a música e fazia dela seu lema:
¿Não quero ficar na sua vida
Como uma paixão mal resolvida...¿
Assim era o Alex para Arabella. Ela sabia que também já tinha desaparecido da vida de muita gente, mas mantinha-se fiel aos seus números de telefone para não perder o fio condutor que a ligava e ligava seus amigos ao seu passado. Alguns, é verdade, queria que a esquecesse para sempre. Desejava que sumissem de sua vida e a deixassem em paz.Principalmente aqueles que não se conformavam com o fim de suas histórias. Arabella adorava saber de seus amores, mas tinha alguns que, sinceramente, melhor nem comentar...
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ARABELLA A BELLA 4:20 PM
Terça-feira, Junho 29, 2004
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O tempo não para....
Percorreu as ruas de sua cidade sem rumo. Aliás, como era de praxe fazer. Tinha horário, não podia se demorar muito. Teria que estar na escola de seus filhos para pegá-los em meia hora e estava com aquela estranha sensação e vontade de poder e querer parar o tempo. Impossível, ¿o tempo não para¿, lembrou-se das palavras do poeta de sua adolescência. Poeta rebelde e tradutor de suas idéias (delas também).
Arabella queria (só) mesmo poder frear um pouco a velocidade com que as coisas aconteciam em sua vida. Principalmente, no que dize respeito às pessoas, aos relacionamentos humanos. Eram pessoas que vinham, ficavam, iam, voltavam e, às vezes, desapareciam. Às vezes, era ela que desaparecia.
É justo que tenhamos essa movimentação toda em nossas vidas? Não é melhor primar pela qualidade do que pela quantidade? Questionava-se, enquanto ouvia no CD player de seu carro o disco do cantor irlandês Sean Keane.
Conhecera o trabalho dele há seis anos, quando trabalhara em uma campanha eleitoral e conhecera um editor fã do tal Sean. Apaixonara-se pelo trabalho do irlandês e declarara-se fã de suas músicas. Qual o quê! Ela não sabia, mas estava mesmo era interessada no editor. Como a vida, na época, era de uma mulher casada e sem pretensões amorosas extraconjugais, canalizou todo o sentimento para o irlandês distante.
Era a típica música irlandesa que tocava em seu carro. Estava precisando pensar e a balada de Sean Keane ajudava a isso: pensar.
O vai-e-vem de pessoas assustava Arabella e agora, mais uma vez, ela se via na confusão de seus sentimentos.
Confusão? Não propriamente dita. Estava mesmo era cansada de ser essa pessoa errante que num se apega a ninguém.
Desde o dia em que ficara com Gabriella não tivera mais coragem de ligar para ela. Deixara a história em banho Maria. Fugira mesmo de seus sentimentos. Ficara confusa e não soubera interpretar seus desejos. Fugira.
Arabella tinha essa mania. Quando não sabia resolver um assunto, enfrentar um dilema (de seus sentimentos), de seu coração, fazia e agia assim: ficava quieta e tinha a falsa sensação de que o fato de não pensar no assunto, não falar, não agir, colocava a coisa no status de resolvido. Não era bem assim. Ela sabia disso, todos sabiam disso. Mas, teimava e não conseguia se livrar desse mau hábito.
Deixara, inúmeras vezes relacionamentos morrerem pura e simplesmente pelo silêncio. Pela palavra não dita, pelo gesto não acontecido, pelo olhar não dado.
Agindo assim sofria e fazia os outros sofrerem. Era nas situações do amor e nos dilemas das relações pessoais que menos conseguia se livrar desse terrível equívoco de personalidade. Não ligara, portanto para Gabriella. Estava esperando que as coisas se resolvessem por elas mesmas. Sabia que não seria assim, sabia que teria que se pronunciar. Odiava o silêncio e a indiferença. Lembrava-se do quanto sofrera com a atitude de Antunes. Agora, repetia.
Na verdade, se voltava para o seu casulo pessoal e se via incapaz de agir em certas situações. Era a maldita mania de achar que dava conta sozinha da vida. Que assim seria mais fácil seguir em frente.
Olhou para o relógio, não podia mais divagar pelas ruas da cidade, não podia mais ¿errar¿ pelas estradas do coração. O tempo estava passando...
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ARABELLA A BELLA 5:02 PM
Segunda-feira, Junho 28, 2004
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Pedaços de Mim...
Tinha algumas coisas que realmente impressionavam e intrigavam Arabella na natureza humana. Os tipos, os modelos, as reações, os ditos e os não ditos. Tudo aquilo que, para uma pessoa significa claramente algo, para outra, dependendo de sua história de vida, sua criação, seus conceitos, acontece de forma absolutamente diferente. Complicadas as relações humanas.
Sempre sob o juízo e a interpretação de outros, temos que seguir inexoravelmente nessa fantástica aventura de conviver, entender e realizar os nossos sentimentos por outros, com outros. Pensava.
Experimentara muitas desventuras nessa tentativa de acertar e fazer-se compreender. Principalmente, quando se tratava de família e relacionamentos amorosos. Arabella queria, sim, acertar, mas, invariavelmente, metia os pés pelas mãos. Tinha uma natureza solitária, que cultivava a solidão, o estar só, e, nessa linha, terminava por afastar as pessoas... Difícil entender alguém que sofre por estar só, mas não consegue se livrar dos momentos de solidão e dos dias a sós, consigo mesma.
E nessa aventura de relacionar-se consigo mesma, longe dos outros, caminhava e deixava pelo caminho pedaços dela mesma. Percebia em sua própria casa que cada canto, cada objeto trazia o momento e um pedaço da vida dela. Restos de sentimentos, composições de momentos, detalhes de relacionamentos. Por vezes cansara-se de colecionar. Vez por outra, decidia mexer nos remexidos, guardados ou expostos, e movimentar a energia que guardava dentro de casa, cravada em cantos do seu espaço doméstico.
Preciso fazer a energia movimentar... Preciso movimentar as coisas para que minha vida ande também.
Tinha um pouco esse lado místico de achar que as coisas, os objetos, roupas etc tinham que se movimentar, tinham que percorrer mundo assim como acontece com as pessoas também. Não dava mesmo para ficar parados, retendo energia. Acreditava que os livros tinham que circular, passar mesmo de mão em mão para disseminar suas palavras, seus ditos, suas idéias. Acreditava mesmo que todos têm o direito de acessar livros, lê-los e formar opiniões sobre conceitos, ser mais livres com suas idéias.
Só o fato de arejar as gavetas e os armários de sua casa já dava a Arabella a sensação de que estava fazendo as coisas acontecerem. Respirando ares renovados. Era assim com seus objetos, era assim também com a vida. A renovação faz parte e deveria ser lembrada e praticada freqüentemente.
Olhou os objetos deixados por outros em suas vidas. Relembrou os momentos década um. Desejou manter alguns consigo, desejou se livrar de outros. Fez uma limpa e lembrou-se ainda dos objetos que lhe foram tirados. Pensara em suas coisas na casa de outrem e se odiou por ter pedaços dela em lugares que desejava esquecer...
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Li um belo texto sobre o amor entre a lua e o mar. Senti-me meio Lula (não pela pretensão de ter o mais belo amor do Mar por mim, mas, pela constatação de ser um ser solitário).
Aconselho sarem uma passadinha por lá e conferir esse belíssimo texto:
http://conversasdexaxa.blogs.sapo.pt
ARABELLA A BELLA 2:42 PM
Sexta-feira, Junho 25, 2004
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A idade do sentimento
Existe idade certa para sofrer? Os sentimentos dependem de nosso tempo de vida nessa ou em outra existência. O que realmente define a medida exata de nossa maturidade para os sentimentos, amores (correspondidos ou não). Arabella realmente não tinha resposta. Nessa opção de errante, errara o momento de encontrar-se e (parecia-lhe) perdera-se de vez pelas estradas da vida. Pelos caminhos dos sentimentos. Por isso, vivia solta. Não se ligava a ninguém e se apegava a todos. Tinha um total complexo de rejeição e não acreditava quando os elogios lhe chegavam aos ouvidos.
Aprendera, é certo, a aceitar os elogios, mas, não acreditava neles. Não conseguira, sequer, acreditar que fosse possível alguém gostar dela, se apaixonar, desejar. Era cheia dos seus dramas e na dúvida optou por ser só. Era mais fácil assim. Num precisava justificar nada para ninguém...
Mas, suas amigas tinham toda razão. Num dava para ficar agindo como se fosse adolescente o tempo todo. Embora, na adolescência não tivera muito a chance de viver as experiências que a idade e a fase sempre proporcionam. Era mesmo uma nerd de carteirinha. Revoltadinha, que vivia voltada para o seu mundo. Falante e extrovertida, mas só quando o assunto era o outro. Ela mesma... Não, nada sobre ela. Nenhuma declaração, nenhuma revelação. Só em seus escritos. Hoje, guardados para sempre na sua ¿caixa do derramamento¿.
Arabella ligou o computador e começou a teclar. Escrever era, para ela, uma necessidade. Inúmera vez cogitara comprar um leptop ao invés de uma bicicleta ( bicicleta era a necessidade de sair por aí fisicamente. O leptop a faria andar abstratamente). Sentia falta de carregar consigo, perto de si, o instrumento que mais usava para a escrita. As idéias, os pensamentos, estavam sempre em profusão, em confusão, dentro de sua mente. A necessidade de escrever era tanta, que andava a catar pedaços de papéis pela rua para escrever frases, externar pensamentos. Muitos deles ficaram soltos (ao vento). Em cima de uma mesa de bar, em algum criado mudo de alguma casa, em algum lugar por onde passou em suas andanças sentimentais.
Escrever lhe fazia bem. Era como se pudesse tocar seus sentimentos ou faze-los palpável. Nunca deu muito ouvido para eles, talvez por isso, gostasse mesmo de dar olhos ao que a fazia sofrer ou não. Pode até ser que isso tivesse algo de sadismo - por que querer ver seus sofrimentos escritos era mesmo querer se certificar de que eles existiam realmente. A racionalidade de Arabella tinha começo, meio e fim, quando se tratava de amores, histórias compartilhadas e vidas, a racionalidade se multiplicava quando entravam seus sentimentos de frustração e de amores não correspondidos. Racionalizava e pulava fora. Com a mochila de seus desejos pendurada nas costas e partia para outra. Tudo, com um bloco de rascunhos e uma caneta à mão.
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ARABELLA A BELLA 12:26 PM
Quarta-feira, Junho 23, 2004
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A exata medida dos sentimentos
Um dia inteiro de dúvidas não cabe em uma só cabeça e, no entanto, povoa o universo inteiro de uma existência. Arabella arrastou-se pelo dia inteiro, por suas longas 24 horas. Quando chegou em casa, cedo, estava ainda atordoada exatamente como saiu da casa das amigas. Queria um banho, precisava de um banho urgente! Nada naquele momento seria mais próprio do que se jogar debaixo de uma ducha bem quente e esperar os ânimos aplacarem, a cabeça parar de girar, os pensamentos serenarem. Buscava o que com todas aquelas vivências, experiências, situações em sua vida?
Migrara do clube dos ¿as¿, para o mundo de Gabriella. Estava realmente entrando no mundo della? Queria aquilo? Torturava-se com perguntas, questionamentos.
Queria colo, mas não se permitia tal luxo. Tinha que seguir sozinha, não podia se abater. Era respirar fundo e se entregar ao dia de trabalho, afastando de sua mente todo e qualquer pensamento nellas, nelles...
Deus do céu, não vai parar nunca? Se perguntava e se torturava.
Arabella traçara para si o destino errante, sozinha, sem ninguém por perto que a prendesse, que a freasse. Mas, queria sim, pessoas consigo. Queria e sonhava em encontrar uma pessoa parceira, que a acompanhasse, não que a seguisse. Aonde Gabriella se encaixava naquilo tudo? Não tinha a resposta.
Vivera o que vivera com ela, por aquela noite porque quisera.
Foi minha a opção. Não fui forçada a nada. Agora, tenho que processar tudo na minha cabeça e tirar o resultado dessa equação. Sempre as equações na minha vida. Está cada vez mais difícil dar rumo aos primeiros anos do resto de minha vida. Desde que acreditei ter me encontrado, ter te encontrado... Me perdi de mim mesma.
A procura de Arabella, na verdade, passava por ela conseguir encontrar-se mais do que a qualquer outra pessoa. Era perdida em seus sentimentos e errante em suas histórias. Divagava e viajava nas suas hipóteses de vida. Ela tinha tanta certeza de que a solidão seria sua fiel companheira no fim de tudo, que sofria a medida certa, exata, dos seus relacionamentos. Fora assim com o Antunes. Sofrera com a indiferença dele, mas, o colocara no devido lugar que merecia: de lado, no quartinho da indiferença (também). Tinha essa facilidade para isolar pessoas, personagens. Sofria, mas, conseguia ser fria com o sentimento alheio no exato tamanho do desprezo alheio.
Agora, já não se lembrava dele... Tinha saudade de algo que não deu certo, mas, aplacara os ânimos e aquietara seus desejos de felicidades para os dois... Antunes, agora, era apenas a boa lembrança de uma noite que deu muito certo e de uma história que não teve a chance de acontecer.
Mas, e agora?
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ARABELLA A BELLA 6:03 PM
Segunda-feira, Junho 21, 2004
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Assustada... Disse: não!
Dormiram, exaustas. Seus corpos tombaram lado-a-lado, meticulosamente encontrados para que não sentissem uma a falta do toque da outra. As duas amigas/amantes se entregaram finalmente aos braços e caprichos de morpheu e sonharam. Cada uma com seu momento.
Na cabeça de Arabella, em seu subconsciente, as imagens vinham difusamente. Sonhou com pessoas, gestos, toques, amores. Nos delírios do desconhecido reconheceu pessoas...
Encontrou Alexandre num bar com Antunes. Não entendeu quando os dois, à sua frente, beijaram-se. Assustou-se. Abaixou a vista, no sonho. Sentiu culpa pela cena e sentiu desejo pelo encontro dos dois. Quis participar do momento deles. Foi na direção da mesa onde estavam, sentados, juntos, se acariciando. No meio do caminho entre a porta do bar e a mesa dos dois, encontrou Gabriella. Parou.
Você, aqui?
Sim, meu amor.Eu vim, você não me chamou?
Chamei... Claro... Mas, o que está acontecendo? Por que estão todos aqui?
Arabella olhou em volta e reconheceu Alex ¿ seu primeiro amor ¿ Avelar, o barman, e, mais, Manoel, o amigo que a desprezara quando ela o reencontrou depois de anos de distância e silêncio.
Estou confusa... Não consigo entender... Essa música, alta.
Arabella ouvia, no ambiente uma das músicas que escolhera para o seu Dia dos Namorados sozinha, cortando seus pulsos dos sentimentos:
¿I can¿t live, if living is without you...¿.
O lugar estava na penumbra. Lá no fundo, viu uma tela de computador. Olhou fixamente. Tentava focar sua vista no que estava escrito. Conseguiu ler: ¿Last menssage sent at...¿
Sua cabeça doía, rodava, estava tonta. Ouvia vozes... Difusas, confusas...
Meu amor, o que há com você?
Não sei... Está tudo meio confuso na minha cabeça... O que todas essas pessoas estão fazendo aqui? E essa mensagem nesse computador? Os pixels, as imagens, os arquivos... Alguém pode me explicar?
Sua cabeça doía. Foi quando Arabella não agüentou e se jogou nos braços de Gabriella, chorando, aos prantos...
Arabella acordou. Soluçando. Tinha um aperto no peito. Uma tristeza. Abrira os olhos de súbito, ofegante. Sentou-se na cama em sobressalto. Gabriella acordou com o movimento brusco na cama. Estavam no quarto de hóspedes da casa de Laura e Paula.
O que foi?
Ãh? Nada... Nada... Um sonho... Esquisito. Que horas são?
Sete da manhã.
Tenho que ir...
Como assim, não vai nem tomar café?
Não... Não... Tenho que ir.
Toma pelo menos um copo de leite...
Arabella voltou-se para Gabriella, olhou-a com carinho, foi até ela e deu-lhe um terno e demorado beijo.
Meu amor, a gente se fala. Disse e saiu apressadamente, olhando para o relógio e já imaginando o dia que teria pela frente. Entrou no carro atrapalhadamente. Virou a chave, deu a partida e seguiu para sua casa. No caminho, ligou o CD player que, coincidentemente tocava o CD dos pulsos cortados.
Mas, essa trilha não sai mais da minha vida!!! Falou alto esbravejando contra si mesma.
Arabella não tinha ainda a noção do que acontecera entre ela e Gabriella. Estava entre assustada e feliz. Curtia uma sensação de carinho de acolhimento. Um bem estar de ter estado com Gabriella aquela noite. De ter podido se aconchegar nos braços de alguém e de ter sentido a segurança de um sentimento diferente de todos os que experimentara até o momento.
Será que tudo isso é reflexo de nossa condição de iguais? Perguntava-se.
Uma ¿errante¿ como eu tem o direito de encontrar a paz de sentimentos? O que estou realmente procurando. Num dia eu corto os meus pulsos de sentimentos e deixo-me sangrar até secar minhas lágrimas da alma. No outro, encontro uma pessoa maravilhosa e me entrego a noite toda aos braços, carinhos, toques, prazeres dessa pessoa. Amo intensamente e me deixo ser amada e, no final, saio correndo, como uma foragida que não pode deixar rastros? Que espécie de pessoa sou eu?
Arabella sofria com suas divagações mas não se deixava entregar nunca. Vivia fugindo, fechando as portas que deixava entreabertas e, ao mesmo tempo, vivia na busca insana de encontrar alguém disposto a empurrar essas portas, ocupar espaços e não se apossar, se acomodar na vida dela, mas a acompanha-la. Ser parceiro, cúmplice e amante...
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ARABELLA A BELLA 11:07 PM
Sábado, Junho 19, 2004
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Agora, já estão sendo ellas
Beijaram-se demoradamente. Sabiam o que se passava e, também, não tinham noção do que estavam experimentando. Arabella sentira o encanto de Gabriella sobre ella desde o momento em que cruzaram os olhares. Não entendeu muito bem o que se passava. Estava no seu transe sentimental, em sua latência emocional e não estava mesmo muito aberta para as divagações de seus desejos, mesmo aqueles mais escondidos, recônditos. Na hora em que se conheceram, sentiu o toque suave do olhar de Gabriella sobre sua existência, mas, não deu ouvidos. Estava surda para os apelos e lamentos de suas emoções. Sufocava qualquer possibilidade de aproximação física com quem quer que fosse, independente de cor, raça, sexo, credo ou nacionalidade.
Gabriella soubera perceber Arabella e, mais, respeitar os espaços, os momentos, os gestos...
Beijaram-se longamente. Arabella fechara os olhos e num suspiro entregara seus desejos na mão della, a outra. Foi Gabriella que, carinhosamente passou a mão pelos cabelos Arabella, desalinhando o que já não tinha mais sentido. Embaralhara de vez os desejos da bella e num gesto de firmeza trouxe-a para perto ¿ mais perto ¿ della.
Sentiram o cheiro uma da outra, se embriagaram com suas fragrâncias e misturaram-nas num jogo de trocas e cumplicidade. Cada uma perdida nos toques da outra, se perdiam em desejos em vontades. Procuraram-se. O beijo longo foi, aos poucos sendo complementado ¿ algumas vezes, substituído (até) - por carinhos brandos, sutis e reveladores.
Aos poucos, desgrudaram suas bocas e Gabriella, carinhosamente começou a desvendar, desnudar, a alma, a aura, o corpo da bella. Naquele momento, buscavam por suas feras. Escondidas entre tantas histórias, tantos desejos, tantas vontades e tantos lamentos. Eram iguais, eram clones de alma, eram gêmeas de olhares, suspiros e pontos estratégicos. Descobriam-se e reconheciam-se. Queriam-se, não negavam mais, não podiam mais esconder.
As mãos de Gabriella buscaram as coxas da bella, que estremeceu ao primeiro toque e apertou a mão da outra entre suas pernas, estava encharcada de desejos. Gabriella escorregara soube a outra. Soubera compreender o gesto, o sinal... Aos poucos, pelas linhas della, movera-se lentamente, desenhando com sua boca a figura do querer de cada uma no corpo desejado. Desceu, passou pelo umbigo, desceu... Encontrou uma Arabella quente, lavada de carinhos e suspiros. Gabriella beijou-a. Explorou cada canto do prazer da bella. Soube perceber suas vontades e satisfazer seus desejos. Percebeu a onda que se criava a cada beijo e carinho que fazia. Arabella entregara-se completamente, envolvera-se, rendera-se, naquele momento, à onda de paixão que invadira suas células. A porta, no início entreaberta, agora, fora escancarada de vez... Gabriella entrou.
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ARABELLA A BELLA 10:27 AM
Quinta-feira, Junho 17, 2004
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Agora já são ellas
Quando chegaram à casa de Paula e Laura, já passava da meia noite. Tarde
para o relógio de 36 anos de Arabella e para um dia inteiro de trabalho nas horas
seguintes. Mesmo assim, ela apostou na noite.
As anfitriãs se apressaram a pegar uma garrafa de um bom vinho português e
servir em taças especiais para o momento, claro, também especial.
Amanhã, quero só ver como vou trabalhar. Riu Arabella.
Amanhã, será amanhã. Quer dizer, amanhã já é hoje. Certo? Disse Gabriella.
Todas riram. O teor alcoólico já estava avançado, mas, nada que
comprometesse o ambiente ou a memória, principalmente.
Puseram música. Ana Carolina...
"Eu só quero saber em que rua minha vida vai esbarrar na tua...".
Cantavam alto e dançavam...
A empatia entre Arabella e Gabriela aconteceu desde o primeiro momento e aumentava a cada segundo que passava. Dançaram e pularam enquanto as amigas foram para o quarto para se trocar. A euforia entre ellas durou algum tempo ainda até que caíram no sofá. Exaustas.
Nossa, estou destruída. Disse Arabella.
Você trabalhou hoje?
Ontem. Você quer dizer, porque hoje eu ainda vou trabalhar... Daqui a pouco.
Arabella mexeu a cabeça rodopiando para que pudesse estalar o pescoço. Era uma mania que tinha para aliviar a tensão na nuca.
Ta doendo?
Um pouco.
Vem cá. Vira aqui de costas. Te faço uma massagem.
Ah, massagem é covardia. Assim, me entrego de vez...
Mas, essa é a idéia. Gabriella falou com desfaçatez.
Arabella deu um longo suspiro e sentou-se com as costas viradas para Gabi que começou a massagear os ombros dela.
Ah... não resisto mesmo à massagem. Arabella deliciava-se com o toque das mãos de Gabriela em seu corpo. E aos poucos entregava-se. Gabriella fazia pressão em pontos tensos do corpo da nova amiga. Aos poucos, foi espalhando a massagem pelas costas de Arabella, que naturalmente se recostou nas almofadas e se entregou aos carinhos de Gabriella.
De repente, ella, a bella, estava experimentando o carinho e o conforto de mãos semelhantes às dela. Se deleitou com a maciez de seus toques que aos poucos começavam a desnudar seu corpo. Gabriella deslizou as mãos pelas costas della e gentilmente beijou-a nos ombros. Arabella estremeceu. Há muito precisava de momentos de carinho e de uma boa massagem no corpo, na alma. Gabriella soube perceber o momento e deixou que as coisas fluíssem normalmente. Arabella fechou os olhos, deliciou-se com os mimos que recebia da amiga. Beijaram-se...
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ARABELLA A BELLA 11:41 PM
Quarta-feira, Junho 16, 2004
Mete bronca aqui...
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Agora é que são Ellas
Eles... Sempre eles... Disse Gabriella num tom que estava mais para lamento do que para constatação.
Arabella olhou para a mais nova amiga sem entender muito bem o que ela queria dizer com aquela frase. Àquela altura do campeonato, também, pouco importava o que se queria ou não dizer sobre esse ou aquele assunto. A verdade é que a significância que se dá às palavras, aos gestos, depende mesmo do valor que se queira dar ao momento. E aí, entram muitas determinantes que variam desde o nível de interesse que se tem pela pessoa em questão até o teor alcoólico que percorre as veias dos personagens envolvidos.
A verdade era que, naquele momento, Arabella queria tudo, menos racionalizar, refletir ou conjecturar. Naquele momento, ela queria ser livre e agir conforme seus instintos. Ser inconseqüente e ignorante o suficiente para não ter que responder pelos seus atos.
Estava cansada a bella... Era um cansaço emocional. Nada físico nada patológico. Sentimentos, emoções, apenas. Por isso, vestiu sua carapuça de imatura ¿ que há séculos não utilizava ¿ e ligou no piloto automático. Limpou a mente...
Nesse momento, Paula e Laura ¿ que estavam dançando ¿ chegaram à mesa.
Vamos? Disseram.
Vamos? Para onde? Perguntou Arabella.
Vamos lá para casa. Aqui ta muito frio. A gente vai para lá, bebe um pouco, ouve música. É mais aconchegante...
Mas, num domingo?
Não se preocupe, Ara, qualquer coisa, você dorme lá em casa. Já fez isso tantas vezes. Vamos, não vai recuar agora, vai? Vamos, deixa de bobagem, deixa de baixo astral. E, de mais a mais, Gabriella é recém chegada na cidade. Vamos mostrar a ela que, aqui, o povo também é animado.
Arabella lembrou-se de sua última noite sozinha, sangrando seus sentimentos, cortando os pulsos de seus lamentos, secando seus amores... Pensou no seu dia seguinte, teria que editar um vídeo no dia seguinte, mas a ilha de edição estava reservada para ela somente na parte da tarde. Aceitou o convite...
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ARABELLA A BELLA 11:31 PM
Terça-feira, Junho 15, 2004
Mete bronca aqui...
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Agora é que são elas - Parte I
Arabella, essa é Gabriella. A frase causou uma onda de riso nas três que perceberam a rima inevitável dos nomes.
Não me diga que é com dois eles?
Siiiiiiiiiiimmmm..
Mais riso.
A forma descontraída como se conheceram animou logo os ânimos da bella que estava mesmo a fim de esquecer as mágoas e lamentos do seu Valentine¿s Day. Foram as quatro para uma mesa no canto do bar e se puseram a conversar animadamente. Gabriella era psicóloga e acupunturista. Curtia as coisas boas da vida e adorava pedalar e fazer caminhadas. Tinha seus 30 e poucos, ou muitos anos ¿ na verdade, a idade, àquela altura era o que menos importava -, e tinha se mudado há pouco tempo para Brasília.Viera para a capital do país por tempo determinado. Ficaria somente por seis meses, depois, zarparia para Londres, onde enfrentaria uma bolsa de estudos do Conselho Britânico. Gabriella ficaria na capital inglesa por dois anos. Estava animadíssima com a perspectiva de mudança e, por isso, irradiava vida.
A conversa evoluiu animadamente entre as duas...
E você, faz o quê, Arabella?
Eu? Escrevo, e muito! Sou jornalista. Roteirista, na verdade. Escrevo roteiros para vídeos institucionais, mas, o meu grande desejo mesmo é entrar no meio cinematográfico e escrever documentários. Um sonho, apenas mais um dos meus sonhos...
Mas, os sonhos existem para serem alcançados, realizados. Sabe disso, claro!
Sei, mas, olha, parecem que, para mim, eles correm a 200 km/h, enquanto essa máquina que vos fala consegue alcançar, no máximo, 100 km/h e, isso, já estressando o motor até o limite.
Mas, o que é isso, isso são palavras? Uma moça tão bonita...
Disse olhando Arabella nos olhos.
Arabella desviou o olhar e mudou de assunto. Mas, sentiu um certo conforto no gesto de Gabriella. Estava carente, se sentindo só. Precisava mesmo de colo e de pessoas amigas por perto.
Bebiam vinho, tinto, seco. O frio que fazia na cidade, naquela época do ano não chegava a ser insuportável, como acontecia no sul do país, mas era suficiente para aproximar as pessoas em busca de calor humano.
Arabella buscava exatamente isso. Buscava seu príncipe. Buscava... Buscava... Buscava...
Queria a cumplicidade de olhares e gestos. Queria identificar seu príncipe encantado. Queria experimentar suas emoções e descobrir seus caminhos. As estradas dos sentimentos eram as que mais fascinavam e instigavam-na. Entretanto era nessas rodovias que ela mais se perdia...
O vinho começava a fazer efeito na mente de Arabella e as lembranças emergiam do mar de lembranças que ela trazia armazenadas em inumeráveis contos de amor incondicional. As memórias afluíam confusamente em seus pensamentos e desordenadamente ela repassava cenas de momentos vividos com muito carinho. A saudade foi inevitável...
Já te falei dele? Soltou a pergunta.
Ele? Perguntou Gabriella. Ele, quem?
Sim, ele, o ¿príncipe¿ que me apareceu intitulando-se o predestinado a cumprir a sina do primeiro dia do resto de minha vida. Surgiu assim, sem mais... Veio do nada, do universo paralelo. Cativou-me e partiu. Aparece, apenas, de vez em quando feito palavras soltas ao vento... Não passa disso, na verdade... De palavras. Algumas vezes, consigo toca-lo, mas só em pensamentos e sonhos. É uma imagem, formada entre pixels e sem definição em minha mente.
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ARABELLA A BELLA 11:07 PM
Segunda-feira, Junho 14, 2004
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O mesmo bar...
Encontraram-se quase que por acaso. Fazia tempo que Arabella não via suas amigas Laura e Paula. Desta vez, foi no barzinho que Arabella costumava ir ¿ aquele, do Avelar. Chegou (bella) por volta das dez da noite. Foi para lá meio que na esperança de encontrar o Antunes. Fazia tempo que não se viam e estava mesmo precisando de um bom papo. Nada que implicasse em terminar a noite na cama, a dois. Queria mesmo conversar.
Entrara numa fase de aplacar seus ânimos e aquietar o coração. Andara agitado demais nos últimos tempos e precisava respirar, oxigenar seus sentimentos ¿ não com outras pessoas, mas com as mesmas e de forma clean - ares limpos, desprovidos de qualquer envolvimento. Queria zerar seus amores e seguir incólume em suas andanças errantes do coração.
O ambiente estava agradável como sempre. Desta vez, Avelar ¿ o barman - estava lá, no bar (claro). Pediu para preparar o ¿de sempre¿. Avelar sorriu. Estava feliz por vê-la de volta. Gostava imensamente de Arabella. Uma relação quase que fraternal, a que existia entre os dois.
Bella, você sumiu, o que houve?
Ah, Avelar, a última vez que estive aqui, você não estava. Era sua folga
Que pena!
É, também lamentei profundamente, mas, normal, normal, faz parte! Também foi nessa última vez que estive aqui que conheci alguém...
Hummm, então foi bom?
Era para ter sido, mas, terminou não sendo (fez uma pausa e completou). Ah, Avelar, conheci o Antunes...
O músico?
Sim, ele mesmo. Não sabia que vocês tinham colocado música ao vivo aqui. Eu estava tão arrasada naquela noite. Fiquei observando-o tocar, tomei umas tantas doses de whisky e terminamos nos conhecendo. Uma gracinha ele. Gracinha até demais. Levei-me para casa, eu não tinha condições...
Disse isso em tom nostálgico, olhar longe, atravessando tudo que encontrava pela frente. Falava com seus pensamentos cravados na noite em que se encontraram pela primeira vez. Enquanto falava, revivia cada segundo dos dois juntos. Transportara-se para o dia do encontro. Era tão real, a lembrança, que podia, se quisesse, tocar as recordações...
Hummm... Então...
Então? Então, nada. Disse Arabella, interrompendo seu momento de transe e de flashback:
Ele foi super carinhoso, super gracinha, me cativou, me beijou, deixou o gostinho de quero mais em minha boca e partiu... Nos encontramos outras vezes e, nada. Só papo e mesmo assim já um pouco frio, distante, indiferente. Fiquei arrasada.
O quê? Arabella arrasada? Esse cara mexeu mesmo com você.
Como assim, eu arrasada? Fiquei arrasada sim, mas, passou. Já estou em outra, mesmo. Sabe, nesse dia dos namorados, cortei os pulsos de meus sentimentos. Sangrei minhas dores até murchar... Estou aqui para me reerguer, junto aos meus amigos.
Disse isso, olhando para Avelar e deixando claro o quanto gosta de estar com ele, ali, no canto dos dois amigos.
Antunes não toca hoje aqui, domingo, sabe como é...
Eu sei, mas tinha a esperança de que viesse.
Conversava com Avelar, quando viu entrarem pela porta suas duas amigas Laura e Paula. Elas estavam bem alegres, como sempre. Fizeram logo um sinal para Arabella. Foram até o bar falar com ela. Não estavam sozinhas, tinha uma terceira amiga junto: Gabriella...
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ARABELLA A BELLA 10:38 PM
Domingo, Junho 13, 2004
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Pulsos Cortados
Fez questão de escolher a seleção musical a dedo. Especialmente definida para se passar o 'Dia dos Namorados' sozinha. Sabia que seria assim. Sempre soube, mas, no fundo tinha uma esperança escondidinha lá no fundo do seu ser, de sua alma, de que tudo mudaria no último momento. Pensou em ter surpresas. Lembrou de todos os homens que já tivera e, no fundo - bem lá no fundo mesmo - teve esperança de que um deles a surpreendesse naquela data...
Sempre fora cética para as nuances do coração. Forte (este). Lembram?
Pois é, Arabella era uma mulher forte, não sucumbia a datas tão patéticas e sem importância. O que valia era mesmo o dia-a-dia, a vida, a batalha... Certo?
Errado.
Pensou em todos eles, um a um: Alexandre, Alex, Antunes (o clube dos "As"). Lembrou do seu ex-marido, dos atuais amores, dos longínquos, dos que nem mesmo chegaram a ser amores, das aventuras, dos desejos, dos lamentos, de suas maldades...
Tinha certeza de que estavam todos, naquele momento, felizes ao lado de suas respectivas companheiras. Vida comum, enquadradinha, previsível, mas, de certa forma feliz... Ou, de toda a forma, feliz. Ela não, ela estava ali, sozinha... Dona de seu destino, errante em seus sentimentos, mas... sozinha!
Arabella também tinha seus segredos e os guardava a sete chaves, por isso, nesse dia não contou a ninguém que ficaria em casa sozinha, que abriria uma garrafa de vinho, colocaria uma trilha selecionadíssima e cortaria os pulsos de seus sentimentos...
Deixaria-se sangrar até secar e novamente ficaria murcha de sentimentos...
Era o ritual do "Valentine¿s Day". Deixar-se sangrar até matar os sentimentos...
Começou o ritual...
Abriu a garrafa de vinho: tinto, seco...
Colocou o CD gravado por ela mesmo com as músicas que escolhera durante a semana... Canções que lembravam cada fase de sua vida e a faziam lembrar o quanto significava a palavra ¿errar¿ no pior sentido dela.
Até Nika Costa!!! Meu Deus! Enlouquecera de vez... 'On My Own' ¿ Ninguém merece!
Caramba, Arabella realmente surtara de vez!!!
Estava Down e feelling blue...
Exatamente como dizia aquela música que tantas vezes dançara nas músicas lentas das festinhas Hi-fi, na garagem das casas da vila onde morava...
Lembrara-se que, já naquela época era metida a forte...
Raramente dançava...
Não queria me expor, dá para entender? Disse alto, para ela mesma, quebrando a harmonia do quarto...
Arabella passara sua vida tentando dar uma de forte. Forte frente aos sentimentos... Para quê? Meu Deus, para quê? Pensou...
Para passar um dia dos Namorados, aos 36 anos sozinha... Estava feliz?
Não, não estava... Mas, estava livre... Errante, como sempre sonhara.
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ARABELLA A BELLA 10:36 AM
Sábado, Junho 12, 2004
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A dor é minha....
Arabella sentia dor. De uma hora para a outra, parecia-lhe que todo corpo doía-lhe. Estava arrasada, fisicamente arrasada. Entrara numa daquelas fases em que uma coisa puxa a outra e os males se dão as mãos para atormentar juntos a paz de quem precisa seguir em frente.
Arabella sentia-se mal, sem ânimo, destroçada fisicamente. Coisa boba deixar-se abater. Ela, uma mulher sempre tão decidida a ser forte, estava sucumbindo às dores e aos desarranjos de seu corpo. Não podia parar. Sabia disso. Determinada a não se entregar, levantou-se e enfrentou uma ducha.
O corpo doía-lhe...
Incomodava-lhe.
No dia anterior, uma alergia incômoda a tirara de seu sossego, naquele dia, uma dor de dente a destroçava. Não sabia o que estava acontecendo com ela. Acreditava que os males do corpo ¿ assim como os do coração ¿ vêm muitas vezes por meio dos males da vida. O desequilíbrio do dia-adia desfazia a harmonia do corpo e jogava-lhe em uma onda de desarranjos que terminavam, por fim, a abater-lhe.
Não era fácil abater-lhe, mas, ela, naquele dia, confessou a si mesma que estava cansada. Foi uma confissão dessas que se faz sozinha para si mesma, entredentes e em tom baixo. Não queria admitir que precisava de um ombro, que necessitava de alguém que a tomasse nos braços e dissesse:
Vem, deita aqui, no meu colo. Não pensa em nada, cuidarei de você...
Maldita hora que escolheu ser sozinha, auto-suficiente e dona de seu destino. Estava carente. As dores a faziam assim: frágil.
Arabella sentiu um aperto no peito, mas, desta vez, não era a dor física, e sim a dor da alma, da solidão...
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ARABELLA A BELLA 8:37 AM
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Uma mulher com mais de trinta
| nome: Arabella a Bella |
| Idade:36 anos |
| Lugar: o Mundo, mundo vasto mundo |
| Pessoas: meus filhotes |
| Goal: domar minhas feras |
| animal:calango. Pela determinação de enfrentar condições de clima, espaço e vida adversas e continuar seguindo em frente. |
| signo:capricórnio. Racional até demais, com os dois pés fincados no chão e a mente no espaço |
| vida: errante e solitária |
| deterinação:seguir sempre em frente |
| niver:12 de janeiro |
| mania: de escrever |
| vontade:de aprender |
| msn: bianadf@hotmail.com |
ICQ:23392882 |
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